Cinco Cinco #12: Contato
Mais um conto inédito (e que não está no livro).
Sou, acredite, o primeiro astronauta brasileiro, o original. Nunca vendi travesseiros, nem me aventurei pela carreira política. Se nunca te falaram do sul-mato-grossense que ora escreve estas linhas, é porque o projeto de cooperação internacional de que fiz parte, o Pequod, deu certo – pelo menos no sentido do sigilo.
Para que me compreenda como sujeito, antes de qualquer a propósito, preciso que visualize: a parede da minha cabine de sono teve, pela extensão dos 24 anos e meio da minha missão, um adesivo do Operário Futebol Clube. Nele, no Galo de Campo Grande fundado por operários na Rua Maracaju, no O.F.C. de que eu era relembrado ao fim de cada repouso, eu amarrava o fio que ligava as duas pontas da vida: a ponta do mundo e a ponta do espaço.
Não que tenha sido fácil. Enquanto eu flutuava na imensidão, o Operário deslizava rumo ao ocaso aqui na Terra. Imagine você no cosmos, a muitos milhões de quilômetros longe do Mato Grosso do Sul, e daí removido do seu time, sabendo muito de quando em quando do seu esfacelar...
Na Terra, há muito de volta, venho sendo bombardeado diariamente por informações do Operário – algumas delas, preferia não saber. Lá fora, à medida que mais e mais me afastava do planeta, o pouco que eu me inteirava do Galo chegava em mensagens de texto, da cota pessoal de cada astronauta – necessariamente atrasadas, breves e, quando redigidas em inglês, escritas por PhDs incapazes de assinalar um impedimento, quiçá soletrar Aquidauanense, Moreninhas ou Taveirópolis.
A outros ocorreria de um time em dificuldades lhe morrer, de lhe dormir – a mim, não: sofrer o Operário me aterrava, mas assim me aterrissava, emprestava-me um estar aqui.
Patior ergo sum – sofro, logo existo.
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Tenho 59 anos de idade. Quero falar de outros passados, e de fotografia:
Kodak Instamatic 11. Lembro da máquina e recordo também que toda fotografia é uma esquina, um encontro de potências. Uma pedra numa foto guarda as muitas pedras que ela ainda virá a ser – futuro no pretérito. O que ainda não foi dorme, insuspeito, por entre os contornos de uma imagem congelada, e isso fica ainda mais claro quando os objetos retratados se julgam sujeitos. No instantâneo de um casal capturado numa festa de casamento, habitam alegrias a morrer e tristezas a viver, milagres silenciosos e tragédias públicas, tudo ainda a se passar, o mesmo valendo para uma turma, um pelotão, um time, se fotografados.
Seria assim com a foto tirada de mim e de mais quatro amigos em Campo Grande na noite quente de 6 de março de 1982, sábado, no estádio Morenão. Seria. Não houvesse a operação da minha câmera por um vizinho de arquibancada produzido um borrão entre o branco e o amarelo, mancha grande o suficiente para ocupar a quase totalidade da imagem resultante. Quase, à exceção de um pequeno ponto localizado na quina direita do retrato, em que se enxerga com muito esforço uma nesga de verde apagado, fresta do gramado.
O Operário vencia o Vasco da Gama por 1x0, gol de Jones, jogo do Grupo J da segunda fase da Taça de Ouro, um dos muitos nomes do Campeonato Brasileiro. Era ainda primeiro tempo na hora do clique, quiçá 20, 25 minutos de partida, e nossa foto, nossa esquina, não capturou a animação da torcida do Galo, tampouco a tentativa de Roberto Dinamite de liderar o time carioca a uma reação, nada, só o borrão.
A Kodak Instamatic 11 custava mil cruzeiros quando ganhei de presente. Corria há alguns meses comigo para cima e para baixo, num vaivém que incluía partidas do Operário em Campo Grande. Não tinha conector de flash, o que tornava um desafio fotografar em noites como aquela, mas independia de pilha ou bateria, o que era bom. No kit promocional dado pelos meus pais, por ocasião dos meus 18 anos de idade, vinha ainda com uma foto autografada por Renato Aragão e um porta-retrato “de fábrica”. A foto de Renato Aragão eu perdi. A câmera, no passar dos anos, também. Hoje, comigo, só resta o porta-retrato; e nele, emoldurado, persiste a fotografia com o borrão.
O borrão. Considero-o prova de um acontecimento extraordinário: a passagem de uma luz com velocidade assombrosa por sobre os mais de 24 mil pagantes reunidos no Morenão para ver Operário x Vasco, sem que nenhuma câmera – além da minha – pudesse capturá-la. De maneira grosseira, acidental e, reconheço, ilegivelmente, como a mancha da saliva de uma estrela num guardanapo, mas documentada mesmo assim.
“Chamem-me Ismael”, diria o marinheiro. Por baixo do borrão que ainda me contempla, íamos eu, Osmar, Paulo, Vítor e Dodoca. Falamos menos do que se imaginaria sobre aquela noite em que Jones ainda voltaria a marcar, assegurando logo no primeiro tempo o placar final de 2x0 para o Operário. Jornada esportiva com um facho de luz no meio: veloz o suficiente para fazer o um doze avos da população de Campo Grande ali reunido parar, assim como os jogadores, que aguardavam a cobrança de uma falta. Não vimos esta parte pois estávamos de costas, em pose de foto, de maneira que soubemos depois, por nos contarem: tudo começou bem alto por cima da marquise que fica ao lado do Autocine. Depois, já virados, nós mesmos pudemos ver: permaneceu por cima do gramado, até os arredores do círculo central, parou, subiu ainda mais alto e sumiu, sem ruído.
Demoraria ainda a me fazer astronauta.
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Pondero que, quando partimos da Terra, em março de 1994, o Operário contava com a taça do Módulo Branco de 1987, oito títulos sul-mato-grossenses e mais quatro mato-grossenses – esses do tempo do estado único do Mato Grosso.
Quando pousamos de volta, em setembro de 2018, o Operário havia somado só mais três taças – três estaduais em 24 anos e meio, na malha temporal esticada de brasis de dois vice-presidentes: de Itamar Franco a Michel Temer.
Mas não é com política nem com astrofísica que puxo de memória hoje os estágios de minha jornada como astronauta – é com o Operário e, às vezes, com outros assuntos de futebol.
Minha primeira lembrança mais viva do Pequod data de julho de 1994, da seleção brasileira e do tetracampeonato mundial, de que soube – incrédulo – no intervalo entre as órbitas de Marte e Júpiter.
Em julho de 1996, fui feliz: na altura do protoplaneta Vesta me contaram do título sul-mato-grossense sobre o Comercial.
Um ano depois, nas freguesias do protoplaneta Palas, voltaram a me contar doutra glória: mais um estadual em cima do Comercial. Ia bem.
Ia. Deixou de ir, e nem o pentacampeonato mundial da seleção brasileira (junho de 2002, já passados de Júpiter) me apascentou. O Operário só voltou a ser campeão quando eu já seguia de volta à Terra – mais precisamente em março de 2018, título estadual sobre o Corumbaense, quando eu olhava Marte pela janela do Pequod.
Nos 19 anos sem ganhar nada, o único que me entendia no Pequod era Hakan, meu colega turco, fanático pelo Galatasaray, de Istambul. Ainda que o time dele, em contraste com o meu, vencesse, a ele ao menos era apreensível o meu choque diante dos precipícios que vinham noticiados do Operário. O que pode ser a solidão intergaláctica de uma pedra desprendida de um corpo celeste diante do vácuo absoluto da alma que vem instaurado por um jejum do seu time? Na bagatela de 19 anos, o Galo deixou de ganhar, caiu, penou para sequer jogar, sangrou para subir, chegou até a ser suspenso das competições oficiais – o que poderia desatar de desastroso desatou. Se, enquanto eu corria na esteira, passava por exames ou saía da minha cabine de sono carregando o fardo de gerações, só Hakan compreendia o peso dos porquês.
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06/03/1982
Taça de Ouro (Campeonato Brasileiro)
2ª fase – 2ª rodada
Grupo J
Estádio: Pedro Pedrossian, Morenão (MS)
Repasso. Nós: Ismael, Osmar, Paulo, Vítor e Dodoca. O que se passou de mais espantoso? O avistamento no Morenão ou a circunstância de, com o tempo, termos nos perdido uns dos outros?
Operário: Carlos Alberto; Cocada, Cassiá, Paulo Marcos e Luís Cosme; Garcia, Pastoril (depois Gilberto Costa) e Arturzinho; Moisés, Jones e Cléber. Técnico: Carlos Castilho
Trato primeiro de Osmar, o preciso Osmar. Para dar conta do clarão testemunhado em 6 de março de 1982 no Morenão, Osmar se aferrava à ciência e falava em “raio globular”. Quando do avistamento, estudava Química. Mudou depois para o Rio de Janeiro, passou a uma corretora de valores, sumiu em 1989 com um cheque sem fundos em meio ao crash da Bolsa carioca. Fui vê-lo de novo numa notícia de internet, que pesquisei já de volta à Terra. No boletim que encontrei, ia com outro nome (Célio de algum grave sobrenome), mas levava o mesmo rosto. Havia sido preso por tentar negociar informações sigilosas às margens do leilão da Telebrás, em 1998. Não sei por onde anda.
Vasco da Gama: Mazarópi; Rosemiro (depois Galvão), Rondinelli, Ivan e Pedrinho; Serginho, Dudu e Cláudio Adão; Wilsinho, Roberto Dinamite e Renato Sá. Técnico: Antônio Lopes
Depois penso em Paulo, o magro Paulo. Abandonou a Física, que estudava comigo no tempo do clarão, para ir ajudar na loja de roupas do pai. Qual foi a minha surpresa ao descobri-lo quarenta quilos mais pesado em 2019, à espera de um voo no aeroporto de Fortaleza. “Trabalho como consultor de soluções para crédito pessoal”, ele me disse. Entendi mais tarde, em seu velório em Campo Grande, que isso significava “agiota” e, que por mais perigoso que fosse o seu ofício, morrera engasgado com um amendoim. Paulo era mais das conspirações. Atribuía a luz sobre o Morenão à passagem de um caça soviético MiG-25 equipado com sinalizadores, numa missão de reconhecimento. Limitei-me a rir quando ouvi dele a tese, na mesa de um bar perto da Federal. Por que um MiG-25 faria um sobrevoo agravado por pirotecnia sobre um estádio no Mato Grosso do Sul? Gostaria de ter feito essa pergunta a Paulo quando vivo. Imagino que mencionasse a proximidade da base da Força Aérea Brasileira, a menos de dez quilômetros do Morenão, algum segredo lá escondido, e, quem sabe, a aproximação entre Brasil e Estados Unidos no campo da pesquisa espacial (nos estertores daquele 1982, o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, convidaria o Brasil a enviar um candidato a astronauta para a NASA, o que efetivamente só tomaria forma depois).
Árbitro: José de Assis Aragão (SP)
Vítor constituía um caso completamente diferente. Sempre foi místico. Quando adolescente, muito católico; na época do curso de Odontologia, meio hippie – o que o condicionou a explicar o clarão ambulante pelas chaves da “energia”, da “natureza”, dos “elementais”. Em torno do período em que se mudou para o interior, dentista formado, família ainda em formação, reavivou a fé da adolescência, o que – sem nenhum plano próprio – o conduziria anos depois a uma vaga segura de vereador na cidade que adotou como sua. Um, dois, três mandatos, confirmou-se conhecedor tão profundo da alma quanto da boca do município, que atendia gratuitamente uma vez por semana perto da casa paroquial. Era querido, e foi com grande comoção popular que passou anos lutando contra um câncer no pulmão – que venceu. Curado, agradeceu se juntando a uma romaria numa rodovia, poucos meses depois do meu regresso ao nosso planeta. Morreu num posto de combustíveis, acendendo junto à bomba de gasolina o primeiro cigarro em uma década.
Renda: Cr$ 5.961.950,00
Dodoca está vivo em Campo Grande, sem deixar pratear sequer um fio de cabelo. De uns tempos para cá, deu para fingir em público que não me conhece, talvez por empáfia, talvez por eu tê-lo lembrado de um empréstimo dos dias do Plano Collor. Era comunista na faculdade de Veterinária, que largou para fazer Direito em São Paulo. Não deixou de ser coerente nessa troca: em retrospectiva, era e ainda é um animal. Depois de passar no exame da Ordem, pegou cancha em falências e acabou voltando ao estado, de olho na vasta clientela local de empresários e fazendeiros encalacrados. Retém até hoje uma habilidade que deduzo calculada: a de parecer mais vil que qualquer cliente e nisso lançar, por contraste, um manto de modéstia, humanidade e até de inocência sobre o criminoso mais desabrido. Abocanhou tanto em participações e terrenos que, de um dia para outro, virou rico, guardando dos tempos de estudante algo da retórica revolucionária, a título de tempero dos canapés. Come com favas todos os escrúpulos de consciência. Quando ainda falava comigo, copo de uísque na mão, comentou em seu escritório certo dia sobre a iminência de uma festa da alta roda: “se a Revolução estourar do lado de fora, não vou ter tempo de me explicar”. Coerente com essa autoironia, mantinha então emoldurada e pendurada na entrada de sua sala a frase de um antigo governador: “Fiquem sabendo que na Oposição está o pessoal que inventou o fósforo, levou a caixa e acendeu a fogueira para queimar Joana D’ Arc”. Há muito vai além do Direito. Faz e desfaz mandatos, quebra e remonta consórcios, cobra e desdobra fazendas. É Dodoca a Situação que chora seus heróis ou a Oposição que descola fósforos no armazém? O encanto cafajeste de Dodoca mora na impossibilidade de responder. Para Dodoca, que não perde o sono com nada, as luzes sobre o Morenão foram “qualquer porcaria”. Ainda será desembargador, se houver tempo.
Público: 24.575 pagantes.
Eu sigo aqui. Com a foto flutuando mais do que apenas na minha memória. Até hoje, reconheço, um observador independente enxergaria no retrato mais um defeito de exposição do que a documentação de uma aparição luminosa. O que não me impediu, por alguns meses depois daquela noite, de insistir. Não ri ao enxergar o borrão impresso pela primeira vez – desconfiei, sem me resignar de forma plena, que poucos dariam crédito à prova. Infelizmente estava certo no desacreditar. Busquei em vão a Aeronáutica, a imprensa, pedi ajuda a técnicos da Federal. Enviei um negativo à própria Kodak Brasileira Comércio e Indústria Ltda., via carta-resposta comercial à caixa postal de número 225, em São Paulo. Contatei especialistas por carta, telefone e ao vivo – até os mais heterodoxos, de resto tão abertos ao implausível, creram-me farsante. Nada para além do borrão.
Em papo de alguns segundos: cilindros radiados, impossíveis e mudas aeronaves, rastros de puro fogo, labaredas de cor nova, meteoros indecisos, painéis piscantes em flama – eu mesmo me perco entre as minhas descrições.
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Março de 2022. Moro no Jardim São Lourenço, Campo Grande. Aqui, para efeitos de cálculo, a força da gravidade se encontra em 9,7849 m/s². Força a que meu irmão, minha cunhada, meu sobrinho, a esposa do meu sobrinho, meu sobrinho-neto, meus dois cachorros e teoricamente eu, assim como os móveis e utensílios da sala de estar onde nos encontramos, estamos submetidos – e a qual deveria estar submetida também o porta-retrato com a foto do borrão, mas não. Ao invés de pregada ou irreversivelmente atraída ao chão, o porta-retrato flutua, como numa estação espacial. Só eu a vejo, e em câmera lenta.
Filtro as possibilidades. Colho uma: a chance de eu e o porta-retrato estarmos em queda livre, contra o panorama de um mundo que, de resto, decorre como esperado. A se considerar que eventos extremos, como quedas livres, podem provocar nos seres humanos um sentimento subjetivo de dilatação de 1.5 a 2 vezes do tempo e que, especificamente nessas quedas livres, é possível experimentar uma sensação de microgravidade, que eu e a foto caiamos juntos num abismo só nosso talvez faça sentido.
Restituo o facho de luz mentalmente ao cenário. Para ser preciso, aos 16 minutos, Jones marcou o primeiro gol num chute de cobertura e, aos 34, ainda no primeiro tempo, ampliou de cabeça – um espaço de 18 minutos entre um gol e outro do Operário. Dentro desses 18 minutos, por uma determinada quantidade de segundos (decerto menos de um minuto), um fogaréu deslocou-se numa velocidade extranatural e extraterrena num chegar, estancar, passar e subir por sobre o Morenão. O tempo de alguém se dilatou ali? Havia algum sujeito no cerne daquele raio, o mesmo raio que nos ocultou como imagem? E por que meu tempo se dilata agora? Mais: caio? E, se agora caio, por que caio? Só tenho perguntas.
É curioso. Enquanto por três anos orbitei zonas de indeterminação dentro do Sistema Solar, na altura do Cinturão de Kuiper, nunca me peguei a questionar se o que se passava diante dos meus olhos era efetivamente concreto, simulado por terceiros ou alucinado por minha única irresponsabilidade, jamais: de tão convicto da concretude das coisas, sequer me ocorria arranhar a própria materialidade como objeto de investigação. Nem o porta-retrato, que subiu comigo para o espaço em meu pacote de objetos pessoais – uma janela para o mistério que eu e muitos de Campo Grande compartilhamos até hoje – era suficiente para me desviar das 8.909 ordens do dia, entre ida, órbita/exploração e volta.
Desde que regressei, em contraste, fiz-me contemplativo. Pode ser culpa. Pois o segredo que eu e meus colegas de missão guardamos afeta todos. E esse segredo, por nós desvelado, por nós verificado de forma presencial por três anos, e daí mensalmente retestado e confirmado pela sonda que lá deixamos, é que nosso sistema solar pode acabar a qualquer minuto. No pique de um chute ou de uma cabeçada de Jones.
Entre a conclusão do meu treinamento e o lançamento correram poucas semanas. Saímos da Terra com pressa. Partimos cientes da existência de um fenômeno anormal para além de Netuno, mas foi no primeiro terço do caminho que o controle da missão nos forneceu um mosaico mais completo das suspeitas. Acreditem: o que descobrimos ao enfim tocarmos nosso destino no Cinturão de Kuiper resultou pior.
Há algo ali que irá nos engolir. Não precisará de caixa, fósforo, brasa de cigarro, bomba de gasolina, engasgo ou curva no destino: irá nos engolir, tão certo e corriqueiro quanto o fim de um dia.
Cercado pelos meus, numa sala de estar no Jardim São Lourenço, penso no que eles não atinam. Para eles, a título de ilustração, ganhei a vida depois do doutorado nos Estados Unidos como especialista em parafusos numa empresa fornecedora para a NASA. Como conceberiam o Pequod e a conclusão de nossa missão? No sorriso do meu sobrinho-neto, leio a morte de todos nós. Lamento por ele, sobretudo, que nada entenderia.
Sou, no geral, discreto. A única pessoa para quem eu tenho a vontade de contar o segredo neste momento é Dodoca, que, na verdade, chama-se Ahab Marcondes dos Santos. Talvez a minha súbita indiscrição derive do fato de ele ser um canalha esférico, perfeitamente lapidado, dentro de quem, como nas esferas perfeitas, tudo mais ou menos flutua. Eu flutuo, os valores de Dodoca flutuam – há algo em comum entre nós.
O porta-retrato segue caindo. Eu vou lentíssimo.
Sei que, se nos encontrássemos, Dodoca mataria a baleia da minha culpa. Eu contaria, e ele, só ele, seria capaz de me reconfortar com a sensibilidade reservada apenas aos mais falíveis deuses gregos: “uma grande porcaria”, diria.
O porta-retrato está já mais perto do chão. Eu mal me mexo.
Imagino que, se estivéssemos numa mesa, meu amigo derramaria um, dois, três copos de uísque, e em instantes eu conseguiria confessar a ele o que me peguei inúmeras vezes pensando na volta à Terra, enquanto o Operário não vencia nada:
– Eu quero é que se dane. Vão entender o que a torcida do Operário passou.
Penso ligeiramente diferente hoje.
O porta-retrato toca o chão. Quem sabe dê tempo de ligar para Dodoca.
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A imagem do topo foi criada por Inteligência Artificial, via ChatGPT e ImageFX, e depois editada. A principal linha de comando foi a seguinte: “Please produce a 126 Kodak film grainy, overexposed, severely lightleak-affected photo of a 1982 football match at packed Estádio Universitário Pedro Pedrossian (Morenão) on a 1982 night. The resulting scene must be that of light engulfing almost everything, like the instant picture of a lightning bolt, but actually emanating from a UFO-like cylinder of light emanating from the horizon. Remember that Morenão is a mostly roofless, SINGLE-TIER, not imposing oval stadium, with flood light towers. The photo should have been shot from the stands. About 97% of the resulting image should be covered by that dramatic combination of lens flare and light leak. The remaining visible 3% should feature a patch of faded green on the right corner of the portrait (part of the football field) and a small fragment of FIVE Brazilian friends posing at the center of the photo, looking to the camera (no faces, no details on the shirts). The Brazilian friends should wear regular '80s dress shirts, with their faces covered by the flare effect. We should not be able to see any players on the field in detail, but make them wear a black and white striped shirt with black shorts and white socks (Team A) and a white shirt with a black diagonal stripe with white shorts and black and white socks (Team B). Reflect on the lack of flash usage. Please make sure I have the five friends looking at the camera.”


